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As alegrias de um triste viver

Caminhava saltitando, descalça na rua lamacenta. Ia feliz.

Não reparava que os seus pés iam pisando as poças de lama, fazendo um chapinhar melodioso e triste.
 Sujos e gretados pelas longas(...)
caminhadas, eles não sentiam o frio nem o desconforto provocado por um chão castigado pelo longo Inverno chuvoso e que nunca fora asfaltado.
Não conhecia o conforto de uns sapatos ou o suave calor de umas meias de algodão.
Toda a sua curta vida tinha sido assim: vivida de acordo com os parcos recursos de que dispunha a sua família.
Mas isso não a impedia de ser feliz.
Ansiava somente por chegar a casa. Sabia que então seria recebida pelo reconfortante e quente abraço da sua velha, mas carinhosa avó.
Não se lembrava quando tinham ficado sozinhas, mas sabia que há muito tempo era ela que levava os bolinhos que a avó, com mãos trémulas e cansadas, fazia com a perfeição e a ternura que só ela sabia,para serem vendidos na loja do senhor Joaquim, às senhoras do Bairro Azul.
Aquele era mais um dia de tantos, em que ela caminhava com a cesta pela mão. Não lhe sentia o peso, já não. Esse já era um esforço a que estava rotineiramente habituada.
Talvez por isso não sentiu o carro que se aproximava, tão pouco ouviu o barulho da buzina.
Somente quando a água se levantou do charco onde repousava e a atingiu, molhando as suas roupitas, ela ouviu o som duma gargalhada trocista.
Levantou o rostinho surpreendido e assustado, ainda a tempo de ver uma figura infantil, de rosto emoldurado por cabelinhos loiros.Sentada no banco de trás de um luxuoso carro preto, conduzido por um senhor de bigode branco, boné muito direito na cabeça e um casaco com botõezinhos tão brilhantes que pareciam as estrelas que via à noite da janela do seu quarto, a criança olhava-a com maldade.
Não chorou quando sentiu o desconforto da água lamacenta nas suas roupas.
Encolheu-se e aceitou esse facto com o conformismo e a resignação próprios daqueles que estão habituados a encarar a vida com bravura, desencanto e realismo. E continuou o seu caminho.
Ela sabia que tinha que entregar a cestinha, com os doces da avó, na loja do Senhor Joaquim, para que as Senhoras do Bairro Azul os pudessem saborear com prazer.
Anacosta


24 comentários:

  1. Esse seu texto mostra a realidade nua e crua sem maquiagem. Muito bom, seu post. Aproveitando e desejar uma linda semana, repleta de poésias, beijos querida amiga...

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  2. Ana, peço desculpa pela dureza do meu comentário, mas o seu excelente texto levou-me… Vou repetir um texto que escrevi algum tempo. Era mais ou menos assim: Um dia acordei morto, por viver à tempo demasiado no ocidente. Sempre acreditei que a vida deveria ser vivida com grandiosidade para todos. Para a maioria de nós o despertar é ir para o trabalho, falar com os amigos, fazer compras, assistir a filmes, comer o prato favorito e dormir. Para a maioria de nós os problemas geralmente significam pagar a próxima factura do cartão de crédito, comprar o mais recente telefone ou poupar para um qualquer sonho estúpido, comprar um carro ou uma casa.
    Para outros que estão vivos! A imundice que carnificina as suas vidas prevalece. Compreender inexoravelmente passa pela redenção do legado histórico arquitectado a partir da pilhagem que as nações praticaram sobre os povos ao longo dos Tempos. Falo da fundação da escravidão na colonização, imprescindível para o mercantilismo da época, até à usurpação mercantilista dos tempos modernos. Parecendo pouco, selvaticamente o capitalismo revela o seu egoísmo com o aparecimento do chamado industrialismo evolucionista que imperiosamente decorreu, decorre nos países… Estigmatizados, desterrados à própria sorte, hoje, só encontram sofrimento e ostracismo absoluto. Continuo acreditar que um dia seremos todos iguais! Parabéns pelo seu testemunho. Um beijinho e boa semana.

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  3. É verdade Simone, este é o outro lado da realidade que as pessoas teimam em esquecer.
    Beijinho e uma boa semana

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  4. .Obrigada pelo seu comentário e parabéns pelo seu magnífico texto.É verdade que as prioridades de vida de uns são bem diferentes das de outros, pois tem tudo a ver com a riqueza/miséria em que foram criados. Se eu acredito que um dia vamos ser todos iguais? Não, não acredito.
    Não acredito porque não estou vendo o homem portador de tão nobres sentimentos. O homem é egoísta, é opressor...
    Mais uma vez obrigada e um beijo grande

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  5. Ana

    A verdade nua e crua neste texto.
    Mas o que mais me fascinou ainda, foi ela ir e ser feliz.
    Porque felicidade não se compra, não tem preço, nem condição social.

    Deixo um beijinho

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  6. Caminhamos todos para a luz. Um dia seremos todos iguais……beijinho.

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  7. É verdade Luar esse é um consolo para quem nada de material tem: a benção de saber sorrir...
    Beijinho

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  8. Muitas vezes nos deixamos abater pelas tristezas que nem percebemos o quanto são importantes os momentos simples da vida...ou um simples toque do vento...beijos de bom dia pra ti amiga.

    www.olivrodosdiasdois.blogspot.com

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  9. Olá minha querida !!!

    Muito emocionante, envolvente e melancólico o texto, mas traz um choque de realidade em todos nós !
    Às vezes, ou quase sempre somos ingratos com a vida que temos e pessoas assim nos mostram como é possível se superar a cada desafio e como também é possível ser feliz com o que temos, mesmo que seja pouco.
    Um linda lição de humildade, responsabilidade e sabedoria, adorei !! Muito lindo !

    Um beijãooooooo e que sua semana seja linda !

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  10. Ana,

    Nos gestos mais simples se encontra toda a ternura e a grandiosidade da alma!...

    Beijo!
    AL

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  11. Ana, infelizmente retratas aqui neste seu belo texto uma realidade em nossa sociedade.
    Não impota o nosso nível,seja este social ou outro, se olhamos em frente sempre existirá aqueles em melhores situações que nós mesmos, mas se olhamos atras sempre veremos que existe aqueles em situações piores que a nossa.
    O mundo é cruel e desigual!
    Parabéns por mais este maravilhoso e reflexivo texto.
    Uma linda tarde para você.
    Lembranças.
    Ange

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  12. Ana, boa tarde. Você conseguiu fazer com que os meus olhos molhassem tristemente com a realidade e crueldade citadas. O seu texto é maravilhoso, dotado de inspiração dos opostos.
    Há quem na vida, se prevaleça da sua boa condição social, e humilhe aos que são desprovidos de riqueza material, mas no entanto, são providos de valores éticos, morais, e de amor.
    Infelizmente são pessoas de índole ruim, que acham que o dinheiro faz com que sejam pessoas melhores do que outras.Puro engodo!
    O que determina o nosso caráter, é o que construimos de imaterial, que no entanto transmite graça e vida.
    Essa família tinha o de principal:o amor, a união, e o espírito de luta!
    Isso, nenhum poder aquisitivo alto tira de nós!
    É a nossa essência!
    Parabéns!Muito feliz em ler as suas linhas tão morais!
    Beijo grande!

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  13. Olá Ana! Belo e emocionante texto, parabéns
    e obrigado por visitar e comentar no meu blog!
    Passei aqui e já estou seguindo você, te deixando
    o convite para também participar do meu, beijão!

    Meu link: http://bs-bg.blogspot.com/

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  14. Obrigada Everson pelo seu comentário que está carregado de razão.
    Eu penso que é o facto de nós lutarmos pelas coisas que as torna importantes. Quem nunca precisou de o fazer não consegue dar-lhes valor e nem apreciá-las.
    Talves por isso, quem menos tem é mais feliz, pois vê ali o resultado do seu trabalho
    Um abraço

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  15. A felicidade graças a Deus não está ligada aos bens materiais A.S., se não só os ricos teriam direito a ela.
    Bem pelo contrário nós encontramos a felicidade num olhar, num pequeno gesto ou numa simples palavra.
    Obrigada pela sua visita e um beijo

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  16. Ange, apesar de todo o meu otimismo para com o mundo, este é um problema que eu tenho a certeza nunca será solucionado: as diferenças sociais.
    Não que não houvesse solução, mas porque não interessa a meia dúzia de pessoas que isso aconteça.
    Beijo grande para ti e obrigada pela visita

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  17. Patrícia amiga, muitos de nós, apesar de sabermos que a desigualdade social existe, só a interiorizamos quando confrontados com ela, quer porque vimos algo que nos chocou, ou porque lemos uma notícia em qualquer lugar.
    Não é egoísmo nosso ou indiferença, eu penso que são mecanismos que o ser humano arranja para não sofrer tanto com toda esta injustiça.
    Tal como o médico cria uma carapaça para ser imune ao sofrimento alheio, nós cidadãos comuns também o fazemos.
    Beijinho muito grande minha amiga

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  18. Olá Bruno tudo bem?
    É sempre um prazer muito grande seguir blogs com qualidade como é o seu caso, fique certo que o farei.
    Obrigada por ter gostado do meu texto, como sabe é sempre um incentivo para nós quando alguém nos diz que aquilo que fizemos agrada a alguém.
    Abraço

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  19. Minha querida amiga Sam, nós nos perguntamos muitas vezes porque é que cada dia existem mais loucos no mundo?
    Eu tenho um artigo aqui no blog sobre esse assunto.
    Então na maior parte das vezes o mundo é de tal maneira cruel, diferente, injusto e violento para determinadas "classes" que as pessoas não suportam viver/assistir a todas essas desigualdades e isolam-se num mundo só delas onde não à lugar para o sofrimento, para a dor ou para a injustiça, e assim vivem felizes. A esses a sociedade chama loucos.
    Outros como foi o exemplo do meu texto, fruto duma grande força e coragem que possuem conseguem dar a volta por cima e ainda tirar resultados positivos das suas vivências.
    Esse é o nosso mundo!!!
    Mil beijinhos amiga

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  20. Boa tarde, Ana!Estou de volta para agradecer o seu comentário carinhoso no meu blog.
    Você sempre é uma presença fiel, e isso alegra a minha alma, de verdade!
    O seu carinho é de extrema importância para mim!
    Obrigada, amiga.Amo ler você!
    Beijos, e fique com Deus!

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  21. Oi minha linda poetisa, vim aqui no seu cantinho mais uma vez contemplar seus lindos textos de muito bom gosto...

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  22. Um harmonioso e triste caminhar,,,grande beijo de boa noite pra ti amiga.

    www.olivrodosdiasdois.blogspot.com

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  23. Ana querida,

    Em tuas palavras os dois lados do ser humano: A doçura, a pureza e o encantamento figurados pela menina com o cestinho de doces e de pés no chão e do outro a frieza e a malícia expressa pelo menino no carro. Um detalhe: são crianças ainda...
    Lindo texto para momentos de reflexão!

    Um beijo de luz no seu coração

    Deus seja contigo

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  24. Lindo! Cada imagem, cada detalhe, a atmosfera... tudo. Obrigado pela atenção em meu blog! Boas escritas! Abraço!

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